|
Desde cedo Charles de Souza Gavin, nascido em São Paulo
no dia 9 de julho de 1960, foi contaminado pelo vírus da
percussão. Em 68, os colegas de primário da escola
Helena Lemmi, no Bosque da Saúde, zona sul da capital paulista,
resolveram participar do desfile de 7 de Setembro. Só tinha
um problema: o único instrumento que o colégio dispunha
era um surdo de marcação. Sem dinheiro para incrementar
a banda, os professores acharam uma saída: improvisaram instrumentos
com utensílios de cozinha. Mas quem iria assumir o único
e precioso surdo? Charles, acostumado a batucar nas carteiras da
sala de aula, foi escolhido por unanimidade pelos colegas. Logo
nos ensaios, viram que tinham feito a coisa certa: ele era o único
que marcava o tempo com precisão, enquanto os outros castigavam
as tampas de panela, colheres e raladores de queijo tocados com
garfo. A banda, comandada por Charles, acabou faturando o prêmio
de originalidade do desfile.
Aos 15 anos, já morando no Jabaquara, Charles se juntou com
mais dez vizinhos e durante algumas semanas antes do carnaval promoveram
ruidosas batucadas no bairro. Nada era formal, mas serviu para ele
experimentar um pouco de cada instrumento: tocou caixa, surdo, agogô...
Seus ouvidos, porém, estavam antenados nos discos de Led
Zeppelin, Black Sabbath e Emerson, Lake & Palmer. Decidido a
ser baterista, aproveitou frisos metálicos das laterais do
Opala do pai, que tinham sido trocados, e os transformou em baquetas.
O sofá e as poltronas revestidas de corvim viraram caixa,
tons e surdos, e dois cinzeros de metal serviram de pratos. Estava
pronta a primeira "bateria" de Charles, que obviamente
só era utilizada na ausência dos pais.
Em 1979, aos 19 anos, ele convenceu o pai a comprar sua primeira
bateria de verdade, uma Pinguim branca. A condição
para manter o instrumento, porém, era não abandonar
os estudos. Em 1982, Charles entrou na faculdade de Administração
na PUC, enquanto paralelamente trabalhava na Panasonic, operando
computadores enormes. Nas poucas horas de folga tocava compulsivamente.
Desde sua estréia, na banda Zero Hora, passou pela Santa
Gang, Zona Franca e Jetsons, esta última ao lado de Branco
Mello e Ciro Pessoa, com quem viria a tocar nos Titãs, a
partir de 1985. Também com Ciro, integrou o Cabine C, mas
foi no Ira! que passou a fazer mais shows no circuito alternativo
paulistano, chamando a atenção dos Titãs.
Em dezembro de 1984, quando já tinha trocado o Ira! pelo
RPM (banda liderada por Paulo Ricardo, que ensaiava à exaustão
para o disco que sairia no ano seguinte), Charles foi chamado para
participar dos Titãs, no lugar de André Jung, que
coincidentemente acabaria ocupando seu lugar que ainda estava vago
no Ira!. Charles largou a tripla jornada e resolveu se dedicar exclusivamente
à música. Sua estréia no grupo aconteceu em
janeiro de 85. Logo depois, entrou em estúdio para gravar
o segundo disco da banda, "Televisão", o primeiro
com sua participação.
Colecionador compulsivo de discos raros em vinil e garimpeiro de
sebos, o baterista transformou seu hobby numa atividade paralela
aos Titãs: nos últimos anos, Charles tem cuidado do
relançamento de discos fora de catálogo, de artistas
como Tom Zé, Lady Zu e Novos Baianos, além de organizar
coletâneas para algumas gravadoras. Desde o fim dos anos 80,
também produz discos. Sua estréia foi com o álbum
"Vítimas do Sistema", da banda brasiliense Detrito
Federal, em 88. No selo Banguela, que os Titãs criaram em
94, produziu o álbum do grupo pernambucano mundolivre s/a,
lançado em 95.
Casado com a bailarina Mariana Roquete-Pinto, Charles espera para
o fim de outubro o nascimento de sua primeira filha. O casal mora
no Rio.
|